O
QUE É DEPENDÊNCIA QUÍMICA |
O que são as drogas?
Drogas são substâncias utilizadas para produzir alterações,
mudanças nas sensações, no grau de consciência
e no estado emocional.
As alterações causadas pelas drogas podem variar de acordo
com as características das pessoas que as usam, da substância
que é utilizada, da quantidade e circunstâncias do consumo.
Em geral as drogas são apenas os produtos ilegais como a maconha,
a cocaína e o crack. Entretanto, para a saúde substâncias
legalizadas como o álcool, o tabaco e medicamentos usados de forma
abusiva podem ser igualmente perigosos.
Quando as drogas se tornam um problema?
O grande problema é que não podemos saber quem será
apenas um usuário experimental, um ocasional ou um dependente.
O importante é sabermos que o uso de drogas inclui riscos e problemas
para o usuário, no ambiente familiar, no trabalho e no relacionamento
com amigos.
Trata-se de uma questão de ordem mundial que afeta as diversas
camadas da sociedade e que vem crescendo sobremaneira, com implicações
médicas, sociais, econômicas e políticas, e que apresenta
números preocupantes. É considerada um problema de saúde
pública, entretanto, pela sua complexidade deve-se envolver outros
setores da sociedade civil.
Questões difíceis no diagnóstico da dependência
química:
- Como definir o que é normal vs o que é patológico.
- Valores culturais permissivos ao consumo de drogas, principalmente
as lícitas (álcool, cafeína, cigarro)
- É difícil reconhecer quando o consumo da droga está
comprometendo a vida do indivíduo, muitas vezes a pessoa muda
seu estilo de vida para adaptar ao consumo da droga.
Quando é considerado que a pessoa é dependente?
A presença de três ou mais dos sintomas abaixo pode indicar
que o indivíduo está começando a desenvolver dependência
química e, portanto, deve procurar ajuda.
- Um forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância.
- Dificuldade em controlar o comportamento de consumir a substância
em termos de seu início, término e níveis de consumo.
- Um estado de abstinência fisiológico quando o uso da
substância cessou ou foi reduzido, com intenção
de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
- Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes
da substância psicoativa são requeridas para alcançar
os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas.
- Abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos em favor
do uso da substância psicoativa, aumento da quantidade de tempo
necessária para se recuperar de seu efeito.
- Persistência no uso da substância, a desrespeito de clara
evidência de conseqüências manifestadamente nocivas.
Dados Epidemiológicos
- 20% da população usam substâncias psicoativas
no decorrer da vida;
- 15% no mínimo são portadores da doença da dependência
química;
- 10% a 12% desses usam mais de uma droga concomitante;
- A incidência de DQ é de 2 a 6 vezes maior no homem;
- DQ evolui do álcool para drogas mais pesadas;
- 150 mil óbitos/ano por alcoolismo nos USA;
- 15% dos DQ cometem suicídio (20 vezes maior que na população).
Adicção, Drogadicção, Drogadicto
Ballone GJ - Adicção, Drogadicção, Drogadicto
- in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br,
revisto em 2005
A dependência química não é uma doença
aguda. Trata-se de um distúrbio crônico e recorrente. E essa
recorrência é tão contundente, que raramente ocorre
abstinência pelo resto da vida depois de uma única tentativa
de tratamento. As recaídas da drogadicção são
a norma. Portanto, a adicção deve ser abordada mais como
uma doença crônica, como se fosse diabetes ou hipertensão
arterial.
Considerando o fato da dependência química ser um distúrbio
recorrente e crônico, alguns autores mais realistas consideram como
um bom resultado terapêutico, tal como se deseja no tratamento da
hipertensão arterial, asma brônquica, reumatismo, diabetes,
etc, uma redução significativa do consumo da droga, e longos
períodos de abstinência, supondo a ocorrência de recaídas
ocasionalmente. Muitos acham que este seria um padrão razoável
de sucesso terapêutico, da mesma forma que em outras doenças
crônicas, ou seja, o controle da doença, mas não a
sua cura definitiva.
Vamos chamar de "psicoativas" as drogas psicotrópicas,
portanto, com efeito sobre o Sistema Nervoso Central. Convencionalmente,
vamos chamar ainda de "psicoativas" as drogas de caráter
ilícito, cujo efeito por ela produzido é de alguma forma
agradável ao usuário. Pois bem. Quando se usa uma droga
psicoativa, o efeito proporcionado por ela adquire para a pessoa um caráter
de recompensa prazerosa.
A maioria das definições de adicção a drogas
ou dependência de substâncias inclui descrições
do tipo "indivíduo completamente dominado pelo uso de uma
droga (uso compulsivo)" e vários sintomas ou critérios
que refletem a perda de controle sobre o consumo de drogas.
As pesquisas, hoje em dia, caminham através da Psiquiatria e
da Psicologia Experimental, juntamente com a Neurobiologia. Todas essas
áreas se esforçam para identificar os elementos emocionais
e biológicos que contribuem para alterar o equilíbrio do
prazer (homeostase hedonista), alterações esta que dá
origem àquilo que se conhece como drogadicção (droga-adicção).
A palavra "adicção", em português, é
um neologismo técnico que quer dizer, de fato, "drogadicção".
O tema "drogas" é muito complexo, multidimensional e
tem atraído a atenção da maioria dos países.
Nas últimas duas décadas, importantes avanços nas
ciências do comportamento e nas neurociências vieram contribuir
para um melhor entendimento na questão do abuso de drogas e da
drogadicção (droga-adicção).
A neurociência tem identificando circuitos neuronais envolvidos
em todos tipos de abusos conhecidos, assinalando regiões cerebrais,
neuroreceptores, neurotransmissores e as vias neurológicas comuns
afetadas pelas drogas. Também têm sido identificados os principais
receptores das drogas suscetíveis de abuso, assim como todas as
ligações naturais da maior parte desses receptores.
Neurologicamente a drogadicção deve ser considerada uma
doença. Ela está ligada a alterações na estrutura
e funções cerebrais, e isso torna a drogadicção
fundamentalmente uma doença cerebral. Inicialmente, o uso de drogas
é um comportamento voluntário mas, com o uso prolongado
um "interruptor" no cérebro parece ligar-se, e quando
o "interruptor" é ligado, o indivíduo entra em
estado de dependência química caracterizado pela busca e
consumo compulsivo da droga.
Abstinência como Critério de Dependência
Qualquer discussão sobre drogas psicoativas inevitavelmente desemboca
na questão sobre a dúvida se uma droga em particular causa
ou não dependência, e se essa dependência é
física ou psicológica.
Em essência, essa questão gira em torno de se ocorrem ou
não sintomas físicos relativos à síndrome
de abstinência quando o usuário pára de consumir a
droga, o que é tipicamente chamado de dependência física
pelos profissionais da área. Havendo abstinência, considera-se
um sinal de que há dependência.
O que freqüentemente se acreditava era o seguinte; quanto mais graves
e exuberantes os sintomas físicos da síndrome da abstinência,
mais séria ou perigosa deveria ser a dependência da droga
em questão. Mas isso não é verdade. Os sintomas de
abstinência que ocorrem, quando ocorrem, atualmente não mais
constituem uma questão clinicamente relevante. Clinicamente falando,
vejamos por exemplo, os seríssimos sintomas de abstinência
da heroína. Apesar de muito dramáticos eles podem, agora,
ser controlados com medicação apropriada.
Por outro lado, é bom saber que muitas das substâncias
mais perigosas e causadoras de forte dependência não costumam
provocar sintomas físicos graves na abstinência. O craque
e a metanfetamina são exemplos disso. As duas drogas provocam alto
grau de dependência, mas a suspensão do uso causa poucos
sintomas físicos de abstinência, muitíssimo menores
que aos sintomas da síndrome de abstinência do álcool
e da heroína.
Na realidade, interessa à psiquiatria moderna saber se a droga
causa ou não sua busca e uso compulsivo, mesmo diante de conseqüências
sociais negativas e de saúde. Essa tem sido, atualmente, a essência
da dependência química. Não interessa mais delimitar
territórios entre a dependência física e psíquica,
pois ambas exercem papel primordial na manutenção do vício.
Os esforços terapêuticos devem ser dirigidos não
à droga em si, nem tampouco deve ser exclusivamente dirigidos às
condições existenciais do drogadicto, mas sim, à
pessoa do paciente. Que pessoa é essa sobre a qual se abateu a
doença da dependência?
Devemos considerar a dependência à luz da abstinência,
ou seja, só podemos considerar dependente a pessoa que experimenta
algum tipo de mal-estar quando abstinente. É por isso que o estudo
da dependência química sempre enfocou, conjuntamente, a manifestação
da síndrome de abstinência produzida pela interrupção
abrupta da administração da droga. Essa síndrome
se caracteriza por sinais físicos, como por exemplo, o tremor e
alterações do sistema nervoso autônomo nos casos de
alcoolismo, ou o desconforto e dor associados à abstinência
dos opiáceos, cocaína e heroína e assim por diante.
Para entender melhor a Síndrome de Abstinência, notadamente
do álcool, veja Delirium Tremens.
Mas, para conceituarmos a abstinência em si, seja ela devida à
supressão da maconha ou da heroína, devemos observar quais
são os aspectos clínicos comuns a abstinência de todas
as drogas. Talvez a expressão mais adequada para se referir a esse
aspecto comum às abstinências em geral seja um estado afetivo
negativo. Dentro desse estado afetivo negativo encontram-se várias
emoções negativas, como disforia, depressão, irritabilidade
e ansiedade.
Síndrome de Abstinência pelo DSM.IV
Dependência de Substância pelo DSM.IV
Aspecto Popular
Nesses últimos anos, férteis para a neurociência,
têm sido analisados minuciosamente as alterações bioquímicas
que ocorrem dentro da célula após a ativação
dos receptores por drogas. Essas pesquisas vêm revelando importantes
diferenças entre os cérebros das pessoas adictas e das não
adictas.
Não obstante, paralelamente aos avanços científicos
em relação à questão das drogas, tem havido
um dramático descompasso entre tais avanços científicos
e sua repercussão e/ou aplicação junto ao público
geral, junto à prática médica, ou junto às
políticas de saúde pública.
Um dos fatos que pode constatar a defasagem entre os fatos científicos
e a percepção do público geral sobre o abuso de drogas
é, por exemplo, as muitas pessoas que vêem o abuso de drogas
e a adicção como problemas sociais a serem resolvidos apenas
com soluções sociais. Algumas insistem exclusivamente numa
maior atuação do sistema de justiça criminal. A conseqüência
dessa defasagem é um atraso significativo no processo de se ter
sob controle o problema do abuso de drogas.
Dia-a-dia a ciência vem nos mostrando que o abuso de drogas e a
adicção são também problemas de saúde.
Uma importante barreira à compreensão da drogadicção
sob um modelo médico e de saúde é o tremendo estigma
associado ao usuário de drogas ou ao drogadicto. Quando a opinião
pública é mais benevolente sobre um adicto em drogas, considera-o
vítima da sua situação social. Quando não
benevolente, a sociedade clama por punições contundentes
ao "drogado".
A visão popular mais comum sobre os drogadictos é que são
pessoas fracas e más, que não querem levar uma vida norteada
por princípios morais nem controlar seu comportamento e a satisfação
de seus desejos. Há muitas pessoas que acham que pessoas adictas
não merecem nem receber tratamento ou, o que é pior ainda,
algumas pessoas consideram aquelas que trabalham na prevenção
do abuso de drogas, como também portadoras de ideologias diferentes
do público geral, portanto, passando a ser igualmente problemáticas
e indesejáveis.
A divergência entre a maneira de ver o usuário de drogas
como uma "pessoa má" e de vê-lo como um "portador
de doença crônica" é de fundamental importância
para a compreensão e atuação junto ao problema.
Aspecto Social
Seria a drogadicção uma doença? Essa é uma
pergunta de conotação muito mais sociológica que
médica. A medicina e a psicologia investem em muitas pesquisas
partindo do pressuposto que se trata, no mínimo, de uma condição
anômala no controle dos impulsos. Se a drogadicção
não fosse uma anomalia, pela lógica, não se poderia
pesquisá-la tanto assim, pois a medicina não costuma pesquisar
entusiasticamente o normal.
A drogadicção não é apenas uma doença
a nível cerebral. Melhor seria vê-la como uma doença
cerebral onde os contextos sociais em que se desenvolveu e se manifestou
têm importância crítica. Um dos elementos sociais envolvidos
na drogadicção é a exposição a estímulos
condicionantes. Esses estímulos podem ser importantes fatores na
vontade de consumir drogas e mesmo nas recaídas que acontecem depois
de tratamentos bem-sucedidos.
A importância dos contextos sociais (estímulos ambientais)
no desenvolvimento da drogadicção pode ser exemplificada
pelos drogadictos em heroína que adquiriram o vício na guerra
do Vietnã. Depois da guerra e de volta aos seus lares, o tratamento
dessas pessoas foi muito mais fácil e com muito mais êxito
que o tratamento de drogadictos por heroína que adquiriram o vício
nas ruas e longe da guerra.
Para os soldados viciados os estímulos ambientais (que não
existiam mais depois da guerra) foram prioritários sobre os elementos
pessoais. Para os viciados nas ruas talvez não se possa dizer o
mesmo.
Devemos entender a dependência química como uma doença
bio-psíco-social, formada por componentes biológicos, psicológicos
e de contexto social. É claro que as estratégias de abordagem
do problema devem incluir, igualmente, elementos biológicos, psicológicos
e sociais. Por isso não deve ser tratada apenas a doença
cerebral subjacente à drogadicção, más tratar,
sobretudo, as alterações emocionais do paciente, bem como
abordar os problemas sociais.
As entidades sócio-comunitárias que lidam com o assunto,
muitas vezes preferem não se envolver nessa discussão. Entretanto,
faz parte da compreensão dos "Narcóticos Anônimos"
que a adicção é, de fato, uma doença.
De fato, nas instituições grupais que lidam com esse problema,
quando se aceita o fato de tratar-se de uma doença, sobre a qual
somos impotentes (como costumam dizer), tal aceitação fornece
uma base para a recuperação através de programas
de ajuda mútua, como é o caso dos Doze Passos dos Narcóticos
Anônimos.
Para esses grupos de auto-ajuda, a pessoa com Drogadicção
se apresenta ativamente (usando a droga) ou não, mas sempre será
apropriada a utilização da palavra "doença"
para descrever a condição do adicto.
Como a questão das drogas ultrapassou em larga escala os limites
da medicina, os profissionais das diversas áreas, desde a medicina,
religião, psiquiatria, legislação, até o direito
penal, definem a adicção em termos que são apropriados
para suas atuações.
Aspecto Psicológico
Estudando psicologicamente a formação de hábitos,
veremos que, como comprovam estudos experimentais de psicólogos
comportamentais, todos os comportamentos reforçados por uma recompensa
positiva (agradável) tendem a ser repetidos e aprendidos. As futuras
e sucessivas repetições tendem a fixar não só
esse comportamento que conduz à recompensa mas, também,
pode fixar os estímulos, sensações e situações
eventualmente associados a esse comportamento. Os usuários de drogas
referem, por exemplo, que ao ver certos lugares ou pessoas, ao ouvir certas
músicas, etc., experimentam grande vontade de usar a droga.
A psicologia social identifica elementos importantes que podem estar
envolvidos na falta de autocontrole para o consumo de drogas, bem como
em outros comportamentos descontrolados, tais como fazer apostas, comer
de forma compulsiva, etc. É de interesse formular conceitos que
expliquem como essas falhas de regulação levam, em última
instância, à adicção no caso do uso de drogas
ou a um padrão de tipo adictivo em comportamentos não relacionados
ao consumo de drogas.
Um dos conceitos é o chamado "sofrimento em espiral".
O sofrimento em espiral é um conceito segundo o qual, em alguns
casos, uma primeira falha de autocontrole levaria a um sofrimento emocional,
sofrimento este que inicia um ciclo de falhas repetidas de autocontrole,
onde cada falha traz mais sentimentos negativos à pessoa, como
sentimentos de culpa, por exemplo.
Assim, a primeira experiência de consumo de drogas pode se repetir
de acordo com as circunstancias pessoais e sociais, ocasionando uma recaída
e dando surgimento a falhas no autocontrole. Nesse caso, o conceito de
sofrimento em espiral será utilizado para descrever o desregulação
progressivo do sistema cerebral de recompensas no contexto dos ciclos
repetidos de adicção.
Um dos elementos psicológicos muito provavelmente implicados
na manutenção da dependência seria o grande desconforto
das síndromes de abstinência. Essa crise de mal estar seria
uma das bases explicativas para o uso compulsivo e continuado da drogas.
Embora a idéia da abstinência como favorecedora da manutenção
da dependência seja motivo de controvérsias, existem evidências
cada vez maiores sobre a presença de estado afetivo negativo (comum
nas abstinências) pode favorecer o início do desenvolvimento
de dependência, bem como contribuir para a vulnerabilidade à
recaídas. |