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PREVENÇÃO

"Em relação ao consumo de drogas podemos considerar como prevenção tudo aquilo que possa ser realizado para, efetivamente, impedir, retardar, reduzir ou minimizar o uso de drogas e os prejuízos relacionados. Isto implica que, de acordo com as características da população-alvo e dos objetivos que se pretendem atingir, podemos classificar a prevenção ao uso de drogas em:

  1. Prevenção Primária: intervenção junto à população antes do primeiro contato com a droga; seu objetivo é impedir ou retardar o início do consumo de drogas;
  2. Prevenção Secundária: intervenção que ocorre após primeiro contato da população com a droga; seu objetivo é evitar progressão do consumo e minimizar os prejuízos relacionados ao uso;
  3. Prevenção Terciária: intervenção realizada após a instalação de transtornos relacionados ao uso de substâncias; seu objetivo é evitar ou minimizar as complicações decorrentes do uso abusivo de drogas. Nesse sentido confunde-se com o tratamento das dependências químicas. É importante lembrar que, atualmente, se considera como objetivo do tratamento não apenas a abstinência da droga usada, mas também, e principalmente, a reinserção do indivíduo na sociedade."

    (Andrade, A.G.; Bassit, A.Z. e cols.-Avaliação de programas de prevenção de drogas. São Paulo: GREA / D.A. Inc / USAID, 1995.)

Material do SENAD (Secretaria Nacional Antidrogas)
http://obid.senad.gov.br/OBID/Portal/index.jsp?iIdPessoaJuridica=1

Uma pessoa não começa a usar drogas ou a abusar delas por acaso ou por uma decisão isolada. Cada vez mais, pesquisas e estudos mostram que o uso indevido de drogas é fruto de uma multiplicidade de fatores. Se por um lado a pessoa não nasce predestinada a usar drogas, também não as usa apenas por influência de amigos ou mesmo de traficantes.

Fatores de risco são aquelas circunstâncias sociais ou características da pessoa que a tornam mais vulnerável a assumir comportamentos arriscados, como usar drogas.

Fatores de proteção são aqueles que contrabalançam as vulnerabilidades, tornando a pessoa com menos chances de assumir esses comportamentos.

Os fatores de risco e de proteção estão na própria pessoa, na sua família, nos seus amigos, na escola, no trabalho, na comunidade onde ela vive e na sociedade em geral.

Fazem parte deles aspectos biológicos, genéticos, de relacionamento, a maneira como a pessoa interage na família, as oportunidades de conviver com as drogas e de obtê-las, a cultura em que a pessoa vive e os efeitos que cada droga experimentada causa especificamente no indivíduo.

Dessa forma, um mesmo fator pode ser de risco para uma pessoa e de proteção para outra.

Um indivíduo tímido, por exemplo, pode reagir com medo diante do oferecimento de uma droga e decidir não usá-la, ao passo que outro, com base na sua timidez, receoso de ser rejeitado pelo grupo, pode aderir ao uso.

Um adolescente que tem alguém na família que bebe exageradamente pode se espelhar naquele modelo e começar “naturalmente” a beber muito. Já outro pode ver os problemas que a bebida está causando para a família e decidir que não é isso que ele quer para si e para sua comunidade familiar.
Ao realizar um trabalho de prevenção com um grupo, é necessário conhecer a realidade daquele grupo específico, identificando, para aqueles indivíduos, o que é fator de risco e o que poderia ser fator de proteção, a fim de atuar minimizando os primeiros e fortalecendo os segundos.

Subdividir os fatores de risco e de proteção pode ser útil, didaticamente, para conhecer a realidade em que se vai atuar.


FATORES DO PRÓPRIO INDIVÍDUO

De proteção De risco
Habilidades sociais Insegurança
Cooperação Insatisfação com a vida
Habilidades para resolver problemas Sintomas depressivos
Vínculos positivos com pessoas, instituições e valores Curiosidade
Autonomia Busca de prazer
Auto-estima desenvolvida  

Na passagem da experimentação para o uso regular e na manutenção do uso, fatores mais relacionados com características internas do adolescente, tais como insegurança ou sintomas depressivos, podem estar envolvidos.

Analisando-se os fatores internos do adolescente que podem facilitar o uso de álcool e drogas, podem-se citar também a insatisfação e a não-realização em suas atividades. Os jovens precisam sentir que são bons em alguma atividade, sendo que esse destaque representará sua identidade e sua função dentro do grupo. O adolescente que não consegue se destacar nos esportes, estudos e relacionamentos sociais, dentre outras ações, pode buscar nas drogas a sua identificação. A insegurança quanto ao seu desempenho também exerce o mesmo papel, no sentido de empurrá-lo para experimentar atividades nas quais se sinta mais seguro. Em relação aos esteróides anabolizantes, Bahrke e colaboradores (1998) afirmam que a insatisfação com a própria imagem corporal e a deposição de muita importância nos atributos físicos podem se tornar fatores de risco para o uso dessas substâncias, que acabam desempenhando um papel na manutenção da auto-estima desses jovens.

Os sintomas depressivos e as crises de angústia que, em muitos casos, fazem parte da adolescência normal, são também fatores de risco. O jovem que está triste, desanimado ou mesmo ansioso e angustiado tende a buscar atividades ou coisas que o ajudem a sentir-se melhor. Os efeitos das drogas podem proporcionar, de forma imediata, uma melhora desses sintomas, sendo uma tentativa de “auto-medicação”. Quanto mais impulsivo e menos tolerante à frustração for o adolescente, maior será o risco de usar drogas. Segundo estudo desenvolvido com adolescentes dependentes, aqueles que apresentavam sintomas depressivos evoluíam mais rápido da experimentação para o uso regular e também consumiam drogas mais fortes, como a cocaína, em alguns casos, sem ter usado substâncias mais “leves” anteriormente, como a maconha (SCIVOLETTO, 1997).

Ao mesmo tempo, a curiosidade e a busca de emoções, também presentes na adolescência, são fatores que contribuem para o desejo de experimentar sensações novas e integrar-se em comemorações e festas que podem incluir comportamentos de risco e o uso de drogas.


FATORES FAMILIARES

Devem-se considerar como fatores que têm influência tanto para favorecer o uso de drogas como para servir de proteção o fator genético e o papel formador da família.

De proteção De risco
Pais que acompanham as atividades dos filhos Pais fazem uso abusivo de drogas
Estabelecimento de regras de conduta claras Pais sofrem doenças mentais
Envolvimento afetivo com a vida dos filhos Pais excessivamente autoritários ou muito exigentes
Respeito aos ritos familiares Famílias que mantêm uma “cultura aditiva”.
Estabelecimento claro da hierarquia familiar  


A família pode ser um fator de risco ou de proteção para o uso de substâncias psicoativas.

Em primeiro lugar, temos o fator genético, ou seja, filhos de pais dependentes de álcool e/ou drogas apresentam risco quatro vezes maior de também se tornarem dependentes. Uma série de estudos realizados com gêmeos estuda a hereditariedade dos transtornos relacionados ao uso de drogas. Tanto fatores ambientais como genéticos contribuem para o uso e abuso/dependência de drogas. Com exceção dos sedativos e opiáceos, a hereditariedade estimada, em algumas pesquisas, foi maior para o abuso e a dependência de drogas (cocaína, estimulantes, maconha, álcool) do que para o seu uso, enquanto os fatores ambientais contribuíram mais para o uso delas (cocaína, estimulantes, maconha, álcool).

Outro aspecto de fundamental importância é o papel da família na formação do indivíduo. É função da família proporcionar que a criança aprenda a lidar com limites e frustrações. Crianças que crescem num ambiente com regras claras, geralmente, são mais seguras e sabem o que devem ou não fazer para agradar. Quando se defrontam com um limite, sabem lidar com a frustração, por terem desenvolvido recursos próprios para superá-la.

Sem regras claras, é natural que o jovem sinta-se inseguro e, na tentativa de descobrir as regras do mundo, também testará os seus limites, deparando-se com frustrações. Dessa maneira, as drogas surgem como “solução mágica”: o seu consumo faz com que todos os sentimentos ruins desapareçam por alguns instantes, sem necessidade de esforços maiores. Na adolescência, sem a proteção da família, o adolescente desafiador e que não sabe lidar com frustrações apresenta maior chance de desenvolver uso indevido de substâncias.

Cuidados adequados aos filhos durante toda a infância (incluindo a vacinação), como um lar onde as intervenções paternas sejam menos restritivas e impositivas, estão relacionados a uma vida mais saudável na adolescência, capacitando esse indivíduo, quando adulto, a desempenhar um bom papel paterno ou materno (ARMSTRONG et al., 2000).

A adolescência, por ser um período de grandes transformações, leva a família a uma reorganização de papéis e ao estabelecimento de novas regras. São necessárias adaptações na estrutura e organização familiar para preparar a entrada do adolescente no mundo adulto (SPROVIERI, 1998).

A presença dos pais junto aos filhos é tão ou mais importante na adolescência do que na infância, uma vez que seu papel agora é estar atento, mobilizar sem dirigir, apoiar nos fracassos e incentivar nos êxitos. Em suma, estar com os filhos e respeitar cada vez mais sua individualização (SAMPAIO, 1994).

Dessa forma, o conflito entre os pais é um dos fatores de risco mais relevantes, pois expõe as crianças e os adolescentes à hostilidade, à crítica destrutiva e à raiva. Freqüentemente, esses conflitos estão relacionados a alterações no comportamento, tais como agressão, sentimento de bem-estar prejudicado e funcionamento social inadequado. Em especial nas adolescentes, isso pode precipitar sintomas depressivos, delinqüência e problemas com álcool.


FATORES ESCOLARES

De proteção De risco
Bom desempenho escolar Baixo desempenho escolar
Boa inserção e adaptação no ambiente escolar Falta de regras claras
Ligações fortes com a escola Baixas expectativas em relação às crianças
Oportunidades de participação e decisão Exclusão social
Vínculos afetivos com professores e colegas Falta de vínculos com as pessoas ou com a aprendizagem
Realização pessoal  
Possibilidades de desafios e expansão da mente  
Descoberta de possibilidades (e “talentos”) pessoais  
Prazer em aprender  
Descoberta e construção de projeto de vida  


FATORES SOCIAIS

A influência dos modismos é particularmente importante sobre os adolescentes (KANDEL e YAMAGUCHI, 1993). A moda reflete a tendência do momento e os adolescentes são vulneráveis a estas influências. Eles estão saindo da infância e começando a ganhar autonomia para escolherem suas próprias roupas, suas atividades de lazer, enfim, definir seu próprio estilo, e a moda influenciará a escolha desse estilo. Nessa escolha de modelos, salienta-se a pressão da turma, os modelos dos ídolos e os exemplos que esses jovens tiveram dentro de casa, ao longo de sua infância.

O uso indiscriminado de medicamentos, como remédios para relaxar, para melhorar o desempenho sexual e para dormir, dentre outros, dão ao jovem a impressão de que, para qualquer problema, há sempre uma alternativa química de ação rápida que não requer grandes esforços, enfim, resposta consoante com o imediatismo característico da juventude.

De proteção De risco
Respeito às leis sociais Violência
Credibilidade da mídia Desvalorização das autoridades sociais
Oportunidades de trabalho e lazer Descrença nas instituições
Informações adequadas sobre as drogas e seus efeitos Falta de recursos para prevenção e atendimento
Clima comunitário afetivo Falta de oportunidades de trabalho e lazer
Consciência comunitária e mobilização social  


FATORES RELACIONADOS À DROGA

De proteção De risco
Informações contextualizadas sobre efeitos
Disponibilidade para compra
Regras e controle para consumo adequado Propaganda que incentiva e mostra apenas o prazer que a droga causa
  Prazer intenso que leva o indivíduo a querer repetir o uso

De maneira bastante simples, quanto mais rápido o início dos efeitos de uma droga e quanto menor a duração do efeito dela, maior o potencial de uma droga para causar dependência. Isso se explica porque o organismo teria pouco tempo para se re-equilibrar, no caso do fim dos efeitos, com sintomas de abstinência aparecendo de forma intensa e rápida. Assim, com o mal-estar físico causado pela ausência da droga, a pessoa teria “mais vontade” (ou necessidade) de voltar a usar a droga.


A prevenção na família, na escola e na comunidade


O problema do uso indevido de drogas está disseminado em todos os lugares. Escolas, clubes, condomínios, comunidades, todos enfrentam essa questão. Muitas vezes, por não se saber como abordar o problema, não se toma iniciativa para tentar resolvê-lo. Considerando que são muitos e variados os fatores que causam os problemas com o abuso de drogas, uma ação isolada não é suficiente. São necessárias ações conjuntas, em diferentes níveis, realizadas e dirigidas para os diversos grupos que compõem a comunidade. Na definição das estratégias de prevenção, é preciso considerar que as palavras e as informações não bastam. É importante que todas as pessoas envolvidas tenham oportunidade de refletir sobre seus comportamentos e sobre suas opções de vida, procurando identificar os caminhos para uma vida mais saudável.

Prevenção primária, secundaria e terciária

Intervenções podem ser feitas em três níveis:

  • Prevenção primária – O objetivo é evitar que o uso de drogas se instale ou retardar o seu início.
  • Prevenção secundária – Destina-se às pessoas que já experimentaram drogas ou usam-nas moderadamente e tem como objetivo evitar a evolução para usos mais freqüentes e prejudiciais. Isso implica um diagnóstico e o reconhecimento precoce daqueles que estão em risco de evoluir para usos mais prejudiciais.
  • Prevenção terciária – Diz respeito às abordagens necessárias no processo de recuperação e reinserção dos indivíduos que já têm problemas com o uso ou que apresentam dependência.

Os níveis de prevenção são um continuum, sem limites claros, muitas vezes, entre prevenção primária, secundária e terciária.
Na infância, as intervenções preventivas abordam a promoção de saúde em uma perspectiva ampla e podem ser feitas com orientação adequada a pais e professores, usando a criatividade e diversas atividades para propiciar a aquisição de habilidades e experiências que tenham efeito protetor.
A prevenção voltada para os adolescentes ocorre principalmente nas escolas, por ser esse o local que, idealmente, todos os jovens deveriam freqüentar.
É mais fácil iniciar um trabalho de prevenção nas escolas, que têm uma estrutura organizada, voltada para passar informações e dar orientações aos alunos e que mantêm contato com os pais. Entretanto, não é na escola que a prevenção atingirá os jovens de maior risco. Os jovens com problema de conduta, geralmente, abandonam a escola e não se envolvem com regularidade em atividades nas quais também podem ser alvo de ações preventivas.

Nesse caso, ações desenvolvidas na comunidade seriam mais indicadas. Para mobilizar um grupo dentro da comunidade, muitas vezes, é preciso iniciar algum trabalho em uma instituição da região, que pode ser uma escola a partir da qual, com o envolvimento dos alunos, pais, professores e funcionários, podemos expandir as ações para a comunidade ao seu redor, envolvendo líderes comunitários, religiosos e grupos de jovens. É necessário que as ações sejam desenvolvidas em vários âmbitos, com ações integradas entre as diferentes áreas sociais.


O QUE PRECISAMOS SABER PARA FAZER PREVENÇÃO

“Dada a complexidade da problemática do uso de drogas, envolvendo a interação de fatores bio-psico-sociais, o campo das ações preventivas é extremamente abrangente, envolvendo aspectos que vão desde a formação da personalidade do indivíduo até questões familiares, sociais, legais, políticas e econômicas” (ANDRADE e BASSIT, 1995).

Trabalhar nessa área é complexo: exige apoio, conhecimento, criatividade e, mais do que isso, exige uma equipe motivada e persistente, que acredite na capacidade de crescimento do indivíduo e da sociedade.

Apoio:

É necessário que as lideranças da comunidade ou da instituição onde se desenvolverá o programa sejam sensibilizadas para que apóiem e se envolvam na implantação, no desenvolvimento e na manutenção do programa.

Conhecimento:

Os programas certamente serão feitos e aplicados por uma equipe de trabalho. Treinar e cuidar dessa equipe é tão importante quanto conhecer a matéria com a qual se trabalhará. Esse treinamento inclui:

• Conhecimento científico;
• Disponibilidade de estudar para se manter atualizado;
• Aprendizado na tolerância à frustração e na ampliação dos próprios limites;
• Trabalhar com grupos;
• Persistência e paciência para implantação de mudanças lentas, graduais e continuadas;
• Exame dos próprios preconceitos em relação à questão;
• Criatividade para apresentar o material a ser estudado para que a aprendizagem se faça com a vivência.

Definição de objetivos e estratégias:

A implantação de um programa inclui a definição de objetivos e estratégias que atendem as necessidades da comunidade em que estamos atuando. Por exemplo, devem-se levar em conta: os dados culturais do local, quais são as drogas de abuso, quais são os níveis de consumo, quais são as crenças e os valores da comunidade, o que se espera e o que é possível fazer.

Definição de recursos físicos:

É importante ressaltar a definição dos recursos físicos da própria comunidade para que uma ação não seja interrompida com a justificativa de que “sozinhos não caminhamos” ou de que não existem condições de continuidade. Se os recursos são poucos, é necessário buscar ampliá-los.

Fazer prevenção não é uma tarefa fácil. Além da preparação da equipe, da definição de objetivos e do estabelecimento do apoio, temos de contar com dados da realidade externa que interferem no nosso trabalho e estar atentos a novos fatores que possam interferir nele. Por exemplo, uma nova droga introduzida no mercado ou novos hábitos que vêm fazer parte daquela comunidade devem ser considerados.

Os resultados não são observados imediatamente, mas certamente a prevenção vale a pena.


COMO FAZER PREVENÇÃO

O mais importante antes de qualquer iniciativa é o planejamento, para que esforços isolados não sejam desperdiçados. Toda ação isolada terá certamente um impacto, que pode ganhar proporções muito maiores se as ações estiverem voltadas para um objetivo comum, atuando de forma coordenada.
Muitas vezes, é mais indicado que as propostas sejam iniciadas em comunidades menores, em que o processo de mobilização pode ocorrer mais facilmente.

1. Na família:

A família é a célula formadora da comunidade, portanto, não é possível desenvolver ações preventivas na comunidade sem que a ela participe. Tanto a família quanto a escola são parte de um grupo maior que chamamos comunidade. Cada comunidade, como cada família, ou cada escola tem sua história, sua localização, seus valores, seus projetos e seus problemas.

2. Na escola

Qual seria então o papel da escola no enfrentamento de um problema tão amplo e disseminado como o consumo de drogas?

1 – É na adolescência que as pessoas realizam maior número de experiências. Essa é a clientela das escolas.
2 – A escola é o espaço no qual os adolescentes vivem muito tempo de suas vidas.
3 – A escola é um ambiente privilegiado para reflexão e formação de consciência.
4 – A escola sempre teve sob sua responsabilidade papéis culturais.

Essa não é, entretanto, uma responsabilidade exclusiva da escola. Como instituição educacional, a atuação da escola dirige-se ao conjunto dos alunos, a chamada “prevenção universal”. Cabe especificamente à escola participar do trabalho de prevenção primária, ou seja, antecipar-se à experimentação, por meio de ações com o objetivo de evitar problemas decorrentes do uso de risco.

Os educadores devem estar conscientes, no entanto, de que existem, entre os alunos, aqueles que já têm problemas com o uso de drogas. Para eles, podem ser previstas ações de prevenção secundária, às vezes, fora da sala de aula, procurando reverter o processo ou evitar que o uso se torne crônico, agravem-se seus danos ou se torne dependência.

Não se trata, portanto, de um trabalho pontual diante da constatação de consumo de drogas naquela unidade escolar, mas de uma decisão de atuar na formação integral dos alunos de acordo com as circunstâncias do mundo de hoje, sendo o uso indevido de drogas um dos aspectos a considerar.

Nesse contexto, é importante que a escola, ao fazer um programa de prevenção:
• defina seus objetivos;
• estabeleça suas metas;
• trace estratégias coerentes com a filosofia da escola;
• avalie suas ações.

O enfoque de “redução de danos”, em oposição a “guerra às drogas” sustenta-se como mais realista, uma vez que não é possível nem desejável eliminar todas as formas de substâncias psicoativas da sociedade, e mais eficaz, porque é possível diminuir problemas sérios relacionados a acidentes e doenças, mediante o uso circunstanciado e controlado de determinadas drogas, como o álcool e certos medicamentos, por exemplo.

Os adolescentes dificilmente se sensibilizam com abordagens do tipo “diga não às drogas”, “droga mata” ou que mostrem pessoas “no fundo do poço”. São próprias dessa faixa etária fantasias de onipotência, pensamentos como “isso não vai acontecer comigo” e “eu paro quando quiser”.

O trabalho de prevenção terá mais probabilidade de sucesso se:
• for integrado ao currículo escolar;
• for desenvolvido cooperativamente;aproveitar os diferentes recursos humanos e materiais da escola e da comunidade em que ela está inserida;
• usar espaços já criados ao invés de tentar encontrar novos espaços, o que favorece a aceitação das intervenções propostas;
• planejar ações que possam ser desenvolvidas com continuidade;
• envolver toda a escola gradativamente;
• preparar bem os professores para lidar com seus medos e preconceitos;
• respeitar a cultura específica da comunidade;
• identificar os fatores de risco dentro da sua realidade.

“Mas não é possível trabalhar a questão na escola como se ela fosse uma ilha. O reconhecimento dos fatos e mitos a respeito do assunto, da situação real de uso e abuso de drogas em diferentes realidades, assim como as idéias e sentimentos dos alunos, da comunidade escolar e dos pais a respeito do assunto precisam ser considerados” (BRASIL, 2000).

As ações preventivas na escola podem ser orientadas por diferentes modelos, que não são excludentes entre si, constituem guias de ação e sua combinação e adaptação são altamente desejáveis para melhor servir à realidade local. São eles:

1. conhecimento científico;
2. educação afetiva;
3. oferta de alternativas;
4. educação para a saúde;
5. modificação das condições de ensino.

Vejamos cada um deles:

Modelo Objetivo Ação Sugestões
CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Propõe o fornecimento de informações de modo imparcial e científico. A partir das informações, os jovens poderiam tomar decisões conscientes e bem fundamentadas sobre as drogas. 1. oficinas e debates com profissionais de saúde;
2. leitura de livros;
3. discussão de filmes.
Filmes:
O Informante – 1999 – dir. Michael Mann, Trainspotting, Doping
Livros:
1. Liberdade é poder decidir – sobre drogas –, de Maria de Lurdes Zemel e Maria Eliza Lamboy, editora FTD S.A. – São Paulo, 2000.
2. Doces Venenos: conversas e desconversas sobre drogas, de Lygia R. Aratangy, editora Olho Dágua – São Paulo, 1991.
3. Drogas – Mitos e Verdades, de Beatriz Carlini-Cotrim, editora Ática, 1997.
EDUCAÇÃO AFETIVA Parte da observação de que os jovens mais bem estruturados e menos vulneráveis, do ponto de vista psicológico, estão menos sujeitos a abusar de drogas. Procedimentos que devem ser iniciados na infância, visando a melhorar ou a desenvolver no jovem:
- a auto-estima;
- a capacidade de não se envolver no uso problemático;
- a habilidade de decidir e interagir em grupo;
- a capacidade de lidar com a ansiedade e a frustração;
- a capacidade de resistir a pressão de grupos.
Serviços de orientação educacional para desenvolver a afetividade e a auto-estima; atividades grupais organizadas para cuidar da integração, participação e liderança grupal. O próprio projeto pedagógico da escola deve preocupar-se com esses procedimentos e incorporá-los ao cotidiano.
OFERTA DE ALTERNATIVAS Trata da oferta de desafios, prazeres e realizações proporcionadas por outros meios que não incluam o consumo de drogas. - Criação e gestão de atividades empresariais;
- orientação escolar para alunos mais jovens;
- práticas esportivas desafiadoras;
- atividades artísticas variadas.
Torneios esportivos, criação e gestão de hortas comunitárias ou cooperativas de produtos ou serviços. Atividade de monitoria ou ajuda mútua, com alunos mais adiantados auxiliando os mais atrasados ou alunos de séries mais adiantadas, devidamente preparados.
EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE Pôr a educação a serviço de uma vida saudável. Pretende formar um cidadão consciente em relação aos riscos que o cercam e com capacidade de escolher uma vida mais saudável. A discussão de temas gerais, como importância da água no planeta, poluição, trânsito; atividades de plantio ou aproveitamento de alimentos; cuidados com o corpo (desde escovar os dentes, lavas as mãos antes das refeições até fazer sexo seguro).
Obs: Essas atividades podem ser desenvolvidas desde a educação infantil.
MODIFICAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE ENSINO A preocupação recai na formação integral do jovem, não apenas na prevenção ao uso indevido de drogas. - As iniciativas devem ser intensas e duradouras;
- as ações devem começar na pré-escola e envolver pais e a comunidade.
Melhorar a condição de ensino inclui autorizar o professor, credibilizar o conhecimento e respeitar o aluno.
Esse modelo tem seis orientações básicas, que podem ser aplicadas em conjunto:
a - modificação das práticas de ensino;
b - melhoria da relação professor-aluno;
c - melhoria do ambiente escolar;
d - incentivo ao desenvolvimento social;
e - oferta de serviços de saúde;
f - envolvimento dos pais em atividades curriculares.


O foco principal do trabalho da escola deve ser a reflexão, contribuindo para a visão crítica das situações e dos problemas e para o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de escolha dos adolescentes.

O trabalho de prevenção na escola não surge, portanto, de uma necessidade localizada, não pretende reprimir os adolescentes, nem ensiná-los a “dizer não às drogas” ou fazer terrorismo sobre uma “tragédia iminente”. Também, não se trata de acumular mais uma tarefa no já sobrecarregado cotidiano do professor. A prevenção ao abuso de drogas é uma tarefa integrante da sua função educacional, fazendo parte do seu projeto pedagógico. Quando compartilhada pelos educadores, pode ser percebida num contexto de construção da responsabilidade social do grupo de alunos.


3. Na comunidade

Ao pensar em prevenção na comunidade, devemos olhar para o que já construímos e planejar nossas ações a partir do que temos.

1. Um programa será mais eficiente se ele não for uma iniciativa isolada.
2. É importante obter o apoio das escolas, dos locais de trabalho e de recreação, de igrejas e grupos comunitários.
3. O apoio da instituição ou da comunidade permite ações mais amplas.
4. Não existe um modelo predefinido, o que existe são algumas diretrizes, que devem emanar dos problemas com drogas existentes na realidade local.
5. Os programas, sempre que possível, devem abranger os três níveis de prevenção: primária, secundária e terciária.
6. Os programas devem fornecer informações e estimular mudanças de comportamento.
7. Os programas devem ser interativos; grandes discursos e grandes palestras só fazem bem aos palestrantes.
8. Os programas devem ter continuidade. Uma ação pontual serve somente para problemas pontuais.
9. Todos devem participar, desde a elaboração dos objetivos, identificação de recursos e apoio até a execução e, principalmente, no dia-a-dia do programa.


Autores

Sandra Scivoletto
Psiquiatra, Especialista da Infância e Adolescência Geral pela Associação Brasileira de Psiquiatria, Professora de Pós-Graduação de Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Responsável pelo Ambulatório de Adolescentes e Drogas do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SEPIA). Coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria – HC-FMUSP – Hospital da Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Helena M. B. Albertani
Mestre em Educação, Orientadora Educacional com especialização em Aconselhamento de Adolescentes e em Prevenção de Drogas na Escola.

Maria de Lurdes S. Zemel
Psicóloga – Psicanalista- Terapeuta de família do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Associação Paulista de Terapia Familiar (APTF); Autora do livro “Liberdade é poder decidir” – uso de drogas. FTD-2000 – para adolescentes.

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RAMOS, M. (Org.). Casal e família como paciente. Cidade: Escuta Ltda., 1994.
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SCIVOLETTO, S. Abuso e Dependência de Drogas. Em: SAITO, M. I. & SILVA, L. E. V. (Eds.): Adolescência: Prevenção e Risco. São Paulo: Atheneu, 2001. p. 365-385.
TIBA, I. Ensinar Aprendendo: Como superar os desafios do relacionamento professor-aluno em tempos de globalização. São Paulo: Gente, 1999.
VELHO, G. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
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ZEMEL, M. L. S. O papel da família no tratamento da dependência. Revista do Imesc, n.3, out. 2001.

Fonte

Atualização de Conhecimentos sobre Redução da Demanda de Drogas - Curso à Distância - SENAD-2004



O Instituto de Medicina dos EUA propôs, em 1998, a adoção dos seguintes níveis de prevenção:

  • Prevenção universal – dirigida a um público geral, que não apresenta risco maior de envolvimento com drogas do que o esperado para a faixa etária e a cultura onde vive.
  • Prevenção seletiva – dirigida a grupos sociais específicos que apresentam maiores riscos do que a média de se envolverem com drogas. São exemplos: crianças com comportamento agressivo desde a educação infantil, filhos de dependentes de drogas, grupos sociais que tendem a usar drogas como parte de sua identidade enquanto grupo.
  • Prevenção indicada – dirigida a indivíduos que já vêm usando substâncias, de modo arriscado, mas que não são dependentes.

Guia Nida em Espanhol (Guia sobre prevenção do National Institute On Drug Abuse)
http://www.drugabuse.gov/Prevention/Spanish/principio.html


Livros Indicados

  • Aquino JG (org). Drogas na escola. Alternativas Teóricas e Práticas. São Paulo. Summus Editorial, 1998.
  • Aratangy L R. Desafio da Convivência - Pais e Filhos. São Paulo, Gente, 1998.
  • Calligaris C. A dolescência. São Paulo, Publifolho, 2000.
  • Cotrin BC. Drogas: Mitos e Verdades. São Paulo, Ática, 1997.
  • Grynberg H, Kalina E. Aos pais dos adolescentes - Viver sem drogas. Rosa dos Tempos. Rio de Janeiro, 1999.
  • Jacobina RB, Nery Filho ª Conversando sobre drogas. Salvador, Edufa, 1999.
  • Laranjeira R, Jungerman F, Dunn J. Drogas: maconha, cocaína e crack. São Paulo, Contexto, 1998.
  • Laranjeira R, Pinksky I. O alcoolismo. São Paulo, Contexto, 1998.
  • Tiba I. Anjos caídos - como previnir e eliminar as drogas na vida do adolescente. São Paulo. Gente, 1999.

Livros de Ficção:

  • Burkley CT. Obrigado por fumar. Cia das Letras, 1996.
  • Frei b. O Vencedor. Ática, 2000.
  • Huxley ª Admirável mundo novo. Globo, 2001.
  • Rubem ª E aí? Cartas aos adolescentes e a seus pais. Papirus, 2002.


Filmes e documentários Indicados


Aos Treze

Drogas Nunca Mais

Kids

Christiane F.

Requiem para um sonho

Gia: Fama e destruição

Trainspotting